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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Judith rende graças e o orientalismo de Pedro Américo


Pedro Américo- Judith rende graças a Jeová por ter conseguido libertar sua pátria dos horrores de Holofernes (1880), MNBA, Rio de Janeiro.

A história apócrifa de Judith e Holofernes foi uma das cenas religiosas mais representadas no decorrer da História da Arte. Como exemplo podemos citar: Caravaggio, Botticeli, Donatello, Artemisia Gentileschi, Rembrandt, Michelangelo, Palma Vecchio e Gustav Klimt.
Judith e Holofernes by Klimt


A sedução que leva à destruição, é um paradigma cultural que atravessou os séculos e faz parte de uma construção coletiva e da própria cultura do Ocidente.Também demonstra o poder do feminino e do desejo, utilizados como armas de guerra, assim, foi com um olhar que Judith venceu o maior dos batalhões.

O brasileiro Pedro Américo também bebeu dessa fonte e criou uma representação bastante idealizada e romântica para a dramática cena da decapitação mais famosa da história.



Judith rende graças... de Pedro Américo foi realizada em 1880, é um dos exemplos mais representativos dos temas bíblicos com estética orientalista, as ‘lendas de igreja’ das quais nos fala o crítico da época Gonzaga Duque e que eram os temas preferidos na obra de Pedro Américo. Essa obra também traduz muito bem a idealização exacerbada criticada por Duque e que valhera o apelido de ‘idealizador histérico’ para Pedro Américo. Sobre a obra, Gonzaga teria afirmado:


"Para Judite, o pintor serviu-se de um modelo vulgar. Nenhum caráter de raça, excetuando-se o nariz, recomenda o tipo da matadora de Holofernes, que traz na cabeça um pano à egípcia e nas orelhas brincos de argola iguais aos que hoje se fazem nas ourivesarias. A seus pés está a cabeça da vítima e um alfange turco!"

Judith Beheading Holofernes 1598 - Caravaggio

O livro de Judite nos conta a história de como a bela judia viúva afasta a ameaça de uma invasão Assíria e liberta seu povo do general Holofernes. Quando Holofernes e os assírios sitiaram Betúlia, esgotou-se a água na cidade e seus habitantes estavam na iminência de perecer. Usando seu poder de sedução, Judite se infiltra no exército inimigo, seduz e decapta Holofornes enquanto este dormia embriagado. Esse ato estimula o povo cercado que ataca as tropas enfraquecidas com a morte de seu general e o exército de Israel sai vitorioso.

Judith e Holofernes de Artemisia Gentileschi

"Quando se fez tarde, a gente de Holofernes retirou-se. Bagoas fechou a tenda por fora, depois de fazer com que todos os servos saíssem. Todos foram repousar, prostrados pelo excesso de bebida. Na tenda, ficaram apenas Judite e Holofernes caído na cama, completamente embriagado. Judite tinha dito à serva que ficasse do lado de fora do quarto, esperando que ela saísse, como nos outros dias. Tinha dito que sairia para rezar, e já havia falado disso a Bagoas. Todos saíram. Não ficou mais ninguém no quarto, nem pequeno nem grande.

Judite e Holofernes
Kunsthistorisches Museum, Viena (foto Valkirio).

Depois chegou perto da cama, agarrou na cabeleira de Holofernes, e suplicou: "Dá-me força agora, Senhor Deus de Israel".Fonte: livro de Judite, Biblía Católica

Michelangelo, Judith and Holofernes, 1509.

Segundo Carter, a história de Judith é uma história apócrifa e trata de um livro deuterocanónico. Esta terminologia (teológica católica romana) serve para nomear os livros escritos por comunidades cristãs ou pré-cristãs em que a figura de Jesus Cristo ainda não tinha sido conhecida ou reconhecida e por isso não foram considerados numa primeira fase como textos canónicos. Como o de Judite, fazem parte deste grupo os livros de Tobias, Baruque, Eclesiástico, Sabedoria de Salomão e I e II Macabeus, além das adições aos livros de Ester e Daniel.

Judith e Holofernes
Franz Von Stuck(1863-1928).

Para Carter, existiram sempre muitas razões para os artistas recriarem o mito de Judite; desde a reprodução sob encomenda muito especifica até à continuação de um ideário artístico que se multiplica por si e se auto alimenta. Existem também as teorias que justificam esta multiplicidade suportadas pelo inconsciente individual de S. Freud e as teorias suportadas num inconsciente coletivo de Carl Jung, que repousam numa camada mais profunda do inconsciente.
Cristofano Allori,1613


"Sabemos que a nossa cultura e expressão identitária acaba por ser um produto por vezes misturado de expressões, mitos, filosofias e dogmas do passado. Sendo assim, Judite é um objecto histórico e mesmo arqueológico em termos culturais." Carter

Hoje 'Perder a Cabeça' é uma expressão utilizada no sentido de perder o conhecimento e a racionalidade. Enquanto isso o mito sobrevive e reconstrói-se ao longo de séculos e de diferentes sociedades e culturas. Como criação artística verifica-se numa multiplicidade de representações e um campo infindável de pesquisas e análises.

Aly Fell

2 comentários:

  1. More power to, Sheilla ... and wishing you very good New Year as well ... Love, cat.

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  2. Sheilla, ótimo seu acervo de Judites! Estou escrevendo um artico sobre crimes de mulheres e seu blog foi muito excelente. Um abraço, Lyslei.

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