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domingo, 5 de dezembro de 2010

Estética: A lembrança do belo

Narciso de Caravaggio

Série de posts relativos ao Curso de Especialização em História Social da Arte, PUC-PR. Seminários avançados: Estética. Professor Jelson Oliveira. Aula de 29-11-2010.

Estética é a teoria da percepção sensível. Sua ligação com o corpo se faz presente através das variáveis de sensações humanas. Diante uma obra de arte podemos ver o belo, o feio, a dor, o prazer, o desprazer, a agonia, etc...

Na obra 'A República’, Platão não valoriza esse tipo de percepção. Observa-se um desprestígio da sensação e do sensível em favor da inteligência e do intelígivel.

Sobre a estética e a cultura grega Werner Jaeger em sua obra "PAIDEIA - A Formação do Homem Grego": por um lado , “ a literatura grega clássica eleva-se acima da esfera puramente estética, onde a quiseram em vão ensinar”, por outro, “que a história da educação grega coincide substancialmente com a da literatura”.

Homero faz um tipo de história poetizada, o intuito é pedagógico. O espectador ouve o poema e aprende mensagens morais através da poesia. Nesse caso ela é meramente educativa com mensagem moralizante. A oralidade é a marca da cultura grega antiga e o enredo poético era permeado por conhecimentos úteis e prescrições sobre os mais diversos aspectos sociais. A educação dos cidadãos se fazia através da memorização dos trechos, principalmente da Ilíada e da Odisséia. A eficácia da poesia dependia da recitação constante. Hoje a poesia é lírica e pessoal, não histórica.

Algumas das características da oralidade grega são os epípetos aos Deuses e a genealogia, observa-se a importância do nome nessa cultura. A essência e a identidade era definida pelo epípetos, aplicados para refletir a diversidade de seus papéis, obrigações e aspectos.( Exemplo contemporâneo do uso de genealogias: Morte e Vida Severina. A oralidade sobrevive hoje com o cordel, repentes do nordeste e as longas poesias gaúchas.) A memória é super valorizada na cultura oral. Escrevemos o que queremos esquecer.

Para Nietzsche, os Deuses são formas humanas poetizadas e representam o amor dos gregos por si mesmos. É o fenômeno da poetização da vida onde a própria poesia tem o dom da sacralidade.

A lembrança da aletheia (verdade)
A premissa básica da teoria da reminiscência de Platão é: conhecer é recordar. O ensino consiste em recordar o que a alma sabia quando habitava no mundo inteligível das ideias antes de cair na caverna, isto é, ao mundo sensível e ficar encerrada no corpo. Sabemos o que é a beleza, nós a conhecemos no mundo da ideias. No momento da reencarnação o espírito é mergulhado no "rio do esquecimento" , rio astral e não físico , esta perda de memória é indispensável para evitar o suicídio na terra. Alguns estão sedentos e bebem muito das águas do rio do esquecimento. Observa-se aqui a base do espiritismo, também encontrada no orfismo e pitagorismo.

O poeta seria um medium do mundo dos Deuses. Ele diz o sagrado. Platão não concorda com isso, ele considera que a fala dos poetas não é moral e não trasmite a verdade. Ocorre uma censura a Homero e Hesíodo devido ao tratamento que eles conferem aos Deuses. Heráclito diz: “Homero deveria ser expulso dos certames e açoitado, e Arquíloco igualmente”. Platão: “Homero é sedutor. A poesia deveria seduzir com a verdade e não a enganação do poeta fingidor.” A crítica aos poetas é devido a imagem distorcida que apresentam dos Deuses. É interessante notar que as primeiras filosofias são tratadas de forma poética (Parmênides e Xenófanes), mas a filosofia nasce na tentativa de superar o mito com o discurso racional. Se por um lado na Grécia se buscava a tradição poética, por outro havia a recusa através de tudo que não exaltasse a verdade acima de tudo. Os poetas quando escrevem se embebedam e apenas criam a ilusão. A verdade só pode ser encontrada com a inteligência. A arte passa a ser submetida a ciência. Na verdade consiste toda a beleza e o que é de fato bom.

Assim, não se pode pintar Deus como se fosse o autor dos males, (Santo Agostinho veste a luva de Platão), que se abatem sobre os homens. Temos aí um dos traços determinantes da teologia platônica e que contrapõem os poetas. Deus não pode ser o autor do mal. O que é feio é o que representa os Deuses como falsos. O bem jamais estaria com a mentira.

A laicização da palavra implica na democratização da palavra, no surgimento de uma retórica, quem possui o domínio da expressão e do bem falar, possui a capacidade de persuadir e de convencer, aludindo desta maneira, a uma primeira forma de sofismo. Os sofistas não tem o compromisso com a verdade e também são condenados por Platão.

Hoje vivemos num tempo da crise da verdade absoluta. O fundamentalismo é esdrúxulo, amparado em algo que não existe. A verdade passa a ser relativa e ambígua, pertence ao mais forte. As nossas verdades históricas são baseadas em interesses que fundaram os comportamentos.

Outros pontos abordados pelo professor Jelson:
° A poesia mimética. O verbo mimeîsthai, imitar. A essência do ser puro. A mímeses como produção de coisas sempre ontologicamente inferiores, a cópia não tem valor para Platão.
° O ideal como a verdade. As ideias são perfeitas.
° Platão teria abolido a arte ou elevado ela ao conhecimento?
° Platão seria um Homero revisitado?
° O papel da mulher: seduçaõ e curiosidade.
° O novo conceito de sereia, o entusiasmo exacerbado pela razão.
° “Platão é poeta demais para ser filósofo” (Ortega y Gasset).
° O bem e o belo são palavras ligadas.

Jelson Oliveira – Doutor em Filosofia e professor do Curso de Filosofia da PUC-PR. Autor do livro: A solidão como virtude moral em Nietzsche

4 comentários:

  1. post maravilhoso por ser mto claro, conciso, direto.
    Bem se vê q é uma sonhadora profissional!

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  2. Há duas semanas assisti "Dorian Gray", baseado, claro!, em O Retrato de Dorian Gray, soberbo livro de Oscar Wilde.
    Sempre que há uma discussão sobre o belo, lembro do livro, que li quando ainda era adolescente.

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  3. Oi Licínio! Grata pela visita e comentário. Abs

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  4. Eu também li Dorian Gray quando era adolescente.Fiquei mistificada com a beleza que devia ostentar Dorian já que toda a podridão dele ia pra pintura. O belo tem mesmo uma capacidade incrível sobre nós.

    Bela lembrança sobre o belo! Abs

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