Amigos

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Petits faits vrais - A pérola oculta de Rafael

Série de posts relativo ao curso de especialização em História Social da Arte - PUC -PR. Ensaio realizado para conclusão do módulo: do Renascimento ao Iluminismo.Professora Mestre Maria Cecília Amorim Pilla. Aluna: Sheilla Liz Cecconello. Maio de 2011.



Petits faits vrais - A pérola oculta de Rafael


"Si tu me possèdes, tu posséderas tout. / Mais ta vie m'appartiendra. Dieu l'a voulu ainsi. Désire, et tes désirs / seront accomplis. Mais règle / tes souhaits sur ta vie. / Elle est là. A chaque / vouloir je décroîtrai / comme tes jours. Me veux-tu ?"
“Peau de chagrin" de Balzac


Ele era considerado o ‘Princípe dos Pintores’, um superstar das artes, rico e jovem. Ao contrário de seu rival Miguel Ângelo era amado por sua bondade e simpatia. Podia ter a mulher que quisesse, a boêmia que quisesse ou ainda fazer um ótimo casamento, mas segundo a mitologia popular trasteverina, Rafael viu uma sedutora padeirinha a molhar os pés no rio: Margherita Lutti, a filha de um padeiro de Siena, a qual Rafael teria retratado à maneira de uma cortesã, no quadro conhecido como La Fornarina. A discussão a respeito de quem seria a mulher do quadro sempre suscitou polêmica entre alguns historiadores da arte, assim como a causa da morte do pintor que teria sido, segundo o biógrafo renascentista Vasari, por “excesso de sexo” . Qual a verdade por trás do mito?

O historiador Maurizio Bernardelli Curuz, editor da revista especializada Stile comandou um ano de pesquisas sobre o mistério amoroso de Rafael e afirma que foi uma pérola pintada por Rafael no quadro La Fornarina e que também aparece no quadro La Velata, que deu a pista que os historiadores precisavam para desvendar os mistérios que se escondem por trás da lenda. Mas antes situemos Rafael dentro do contexto histórico e social da época.

Rafael pode ser considerado um dos expoentes máximos do esplendor da pintura do Alto Renascimento, está ao lado de Miguel Ângelo e Leonardo da Vinci e é o mais jovem dos considerados ‘três gigantes’ da Renascença. Sua arte aponta para a harmonia e plena serenidade clássica e mesmo após a sua morte prematura, aos 37 anos, ele parece ter deixado uma obra completa. A suprema qualidade dos trabalhos de Rafael residem na pura beleza de suas figuras.Durante sua curta carreira o pintor manteve-se fiel ao classicismo enquanto Leonardo e Miguel Ângelo anteciparam o maneirismo, mas não podemos deixar de perguntar como teria sido a evolução da arte de Rafael se este tivesse tido uma vida mais longa?

No início Rafael segue a escola de Perugino, um mestre da claridade e que lhe ensinou a evitar todo excesso de ornamentos. Perugino pertencia à uma geração de artistas bem-sucedidos e que precisavam de um bom número de aprendizes hábeis para ajudá-lo com a execução das várias encomendas que recebia. Isso ofereceu ao jovem uma base adequada ao novo estilo do Alto Renascimento. É possível observar nesse período uma mudança no status social dos artistas da Renascença: a ascenção do artista ao nível de artesão pequeno-burguês para o de trabalhador intelectual livre. Segundo o historiador Hauser, isso consolida socialmente os artistas em um grupo seguro economicamente, mas longe de ser estável.

Progressivamente Rafael modifica o estilo que assimilara de Perugino desenvolvendo o estilo próprio que o consagraria até nossos dias atuais como um dos grandes mestres do classicismo no Cinquecento.

Em 1504, quando Rafael chega a Florença, os princípios do novo gosto convencional já estavam estabelecidos. O jovem pintor tem contato com Leonardo da Vinci e sua Monalisa, Miguel Ângelo voltava de Roma e já concluíra seu David. Rafael deparou-se ali com um estimulante desafio pois Leonardo e Miguel Ângelo estavam criando padrões artísticos que ninguém jamais sonhara. Florença pululava com intensos debates sobre a renovação da arte. Todas essas manifestações impressionam o jovem e talentoso artista. Pouco tempo passado em Florença e já é possível presenciar a evidência dada pelo pintor à técnica do sfumato de Leonardo.

Como exemplo desse influência, a obra Madonna del Granduca realizada no período:
Nota-se a dissolução de linhas e suavidade da técnica desenvolvida por Da Vinci na obra de Rafael, porém enquanto Leonardo mantém a composição claramente triangular Rafael busca um equilíbrio de massas distribuídas harmoniosamente. Já eram os primeiros indícios das maiores características pictóricas de Rafael: O tratamento do objeto como componente único mas inseparável do todo e composições onde tem-se a ideia de uma cena simples mas de grandiosa claridade.


O estilo de Rafael também foi influenciado pela pintura de Miguel Ângelo, isso decorre a partir da altura em que Rafael trabalha na decoração das paredes de várias salas do Vaticano, as stanze (aposentos), em 1508.

Segundo Hauser, na Itália dessa época o estado pontifício havia tomado o controle político. Uma corte se formou em torno do Papa em Roma e como toda corte prevaleciam os mesmos ideais sociais onde a arte deveria servir para contribuir com o brilho externo da vida. A áuria havia suplantado os príncipes, tiranos e mercadores do norte da Itália. São realizados gastos suntuosos com a cultura. É o advento de uma nova era eclesiástica e seus valores respondem a solenidade, majestade, poder e glória. E lá estava ele: Rafael. Nesse período os corpos rafaelitas se tornam mais volumosos e robustos. Rafael adquire uma nova perspectiva figurativa com o movimento de rotação dos corpos tornando evidente a influência de Miguel Ângelo na sua obra.





Foto detalhe: O Triunfo de Galatéia, 1912 de Rafael e pormenor da Capela Sistina de Miguel Ângelo.



Em 1509, Rafael é nomeado escriba papal e em 1510 tem o primeiro contato com Agostino Chigi, conhecido como o "Magnífico". Chigi pertencia a uma família de mercadores e banqueiros de Siena, era um patrono da literatura, da Ciência e das Artes. Ele contratava artistas de forma a documentar o seu estatuto social e também era financeiro de Júlio II.

Após a morte do Papa Júlio II em 1513, e a adesão de Leão X, a influência de Rafael cresce. Ele torna-se o arquiteto-chefe da Basílica de São Pedro em 1514, e um ano depois é nomeado diretor de todas as escavações de antiguidades perto de Roma. Durante este período, ele também desenhou tapeçarias ilustrando os atos de apóstolos de Cristo para a Capela Sistina. Rafael também desenvolveu a arquitetura e a decoração da Capela Chigi na Igreja de Santa Maria del Popolo e os enfeites da Villa Farnesina, que incluem o triunfo de Galatéia (1512). Executou ainda uma série de pinturas de cavalete, incluindo um retrato de Júlio II (1511-1512), uma série de madonas e outras pinturas religiosas que incluem ‘A Transfiguração’ (1518-1520, do Vaticano). Foi encomendada em 1517, pelo Cardeal Giulio de Medici, posteriormente Papa Clemente VII. A obra não se parece ao estilo sereno de Rafael e parece demonstrar uma nova sensibilidade de um mundo turbulento e dinâmico,alguns historiadores dizem ser uma antecipação do Barroco. 'A Transfiguração' foi concluída postumamente pelo mais notável de muitos seguidores de Rafael, Giulio Romano.



Podemos observar na arte renascentista de Rafael que os objetos são tratados sempre com maestria em composições que se expandem e ao mesmo tempo permanecem homogêneas. Ao partir prematuramente Rafael deixou a impressão que ninguém poderia ir mais além ao tratar da clareza que norteava os princípios de suas composições.

“Ele conseguiu o que os outros só conseguiram em sonhos."
Johann Wolfgang von Goethe (1749-1822)

“Quando ele fechou os olhos a pintura tornou-se cega."
Giorgio Vasari (1511-1574)



Petits faits vrais ( Pequenos fatos verídicos)







A mesma pérola em dois retratos de Rafael - La Velata, 1514 e La Fornarina , 1519.



Segundo Dagobert Frey, enquanto a arte gótica levava o espectador a esmiuçar os detalhes absorvendo as partes da obra sucessivamente, a arte da Ranascença não lhe permite que se demore em qualquer detalhe, que separe qualquer elemento da composição total. Rafael foi um mestre nesse sentido, verdadeiramente ‘clássico’ na medida que serviu a incontáveis gerações quanto ao modelo de perfeição e impecável equilíbrio. É engraçado pensar que de uma obra tão homogênea quanto a de Rafael, (onde as minúcias se perdem na fluidez do todo), que foi um detalhe aparentemente inofensivo no retrato enigmático La Fornarina que levou alguns historiadores a decifrarem um escandaloso romance que passou por séculos oculto. Uma pérola, presa a um elaborado turbante seria parte de alusões ao casamento clandestino do pintor com a filha de um padeiro, apesar do noivado público de Rafael e a sobrinha de um poderoso cardeal do Vaticano. A pérola que também aparece na obra La Velata, sugere que sua modelo era Margherita (pérola, em latim), e não Maria Bibbiena, a noiva oficial do artista ou Francesca Ardeasca, amante de Agostino Chigi como alegavam alguns historiadores.

O historiador Maurizio Bernardelli Curuz afirma ter encontrado evidências sobre as pinturas em documentos contemporâneos de Rafael. O uso de raios-X da Fornarina feitos durante uma restauração também colaborou com a conclusão que de fato a musa retratada por Rafael era Marguerita Lutti. "É claro que não se trata só da pérola, não só dos documentos. A absoluta certeza advém da forma como tudo se encaixa", explica ele. "Mas a pérola foi o que nos deu a dica." Ele ainda afirma: ." O jovem pintor e sua bela modelo viviam um romance impossível. É difícil subestimar o status de Rafael em Roma, ele era um superstar. A distância que os separava era como a que hoje separaria George Clooney de sua faxineira.”
A principal fonte sobre a vida de Rafael é a ‘Vite dei più eccelenti pittori, scultori e architetti’, escrita por Giorgio Vasari e publicada em duas versões, em 1550 e em 1568. Vasari afirma que o pintor, dominado por uma “necessidade contínua de deleites carnais”, quase abandonou os trabalhos que realizava na Villa Farnesina, só não o fazendo porque Agostino Chigi conseguiu que a mulher que inflamava Rafael viesse morar com ele: Margueritta Lutti. Vassari afirma que Rafael morreu de uma febre terrível após uma intensa noite de sexo com Margueritta.

O fato é que o quadro La Fornarina, encontrado inacabado no estúdio de Rafael após a sua morte, até hoje causa alguma polêmica entre os peritos de arte. Cláudio Strinati, superintendente dos Museus de Roma, identifica a Fornarina com Francesca Ardeasca, amante de longa data de Agostino Chigi, dono da Villa Farnesina onde Rafael trabalhava. Strinati sugere que o acabamento muito cuidadoso do quadro demonstraria que ele não teria sido feito apenas para o prazer pessoal do artista. Para ele a aliança revelada nas análises dos raios-X da obra seria de Francesca que acabou se casando com Agostino Chigi . Ou seja, a identificação da Fornarina com a filha do padeiro, nascida da descrição um pouco libidinosa que Vasari faz de Rafael, daria lugar a uma interpretação presumivelmente mais séria da sua figura, baseada na história do mecenato na arte.
Mas o historiador Bernardelli Curuz e sua equipe foram além, eles recuperaram vários símbolos e descobriram documentos da época que provam que Rafael e Margherita se casaram em uma cerimônia secreta, o que era relativamente comum na época. Eles também conseguiram provar que a modelo da Fornarina é a mesma da Velata. Com a ajuda de computadores, eles transferiram o rosto de uma tela para a outra e viram que há mais do que uma coincidente semelhança.


Segundo Curuz "Pelo menos até o século 18, o lado alegórico da pintura era extremamente importante. Foi o Impressionismo que reduziu nossa capacidade de ler um quadro como se fosse um livro." As fotos de raio-X mostraram que a figura da Fornarina está diante de árvores de marmelo e murta, símbolos da fertilidade e da fidelidade e ela usa uma aliança na mão esquerda. Mas a versão final da tela, completada de forma desajeitada após a morte de Rafael pelos seus discípulos, cobriu os arbustos e a indiscreta aliança. Ainda nas palavras de Curuz: "Na época da sua morte, a escola de Rafael estava pintando a Sala di Constantino, no Vaticano, e queria a todo custo evitar a perda da encomenda. Isso significaria a falência",. Michelangelo o maior rival de Rafael pressionava o Vaticano para ficar com a encomenda. "Ele havia deixado La Fornarina inacabada, e os alunos começaram a se preocupar com a paisagem, o anel, qualquer coisa que pudesse indicar casamento."

A relação entre Rafael e a Padeirinha parece ter se desenrolado por um longo tempo, segundo Curuz ele a representou em outras obras. A monumental ‘Escola de Atenas’, uma das suas principais pinturas, foi pintada entre 1509 e 1510 . Nesse afresco nenhum personagem dirige o olhar para o espectador , exceto Rafael e Margherita, que encaram desafiadoramente.


Margherita, quatro meses após a morte de Rafael teria se refugiado no convento di Sant'Apollonia, no bairro romano do Trastevere. Nos registros do convento encontra-se a chegada da "viúva Margherita", filha de um padeiro de Siena. Para silenciar os rumores do escandaloso caso, os alunos de Rafael colocaram uma placa em seu túmulo em memória da sua eterna noiva, Maria Bibbiena, como para unir ambos após a morte. Maria Bibbiena foi inclusive, na ocasião da sua morte, enterrada ao lado de Rafael no Panteão.
A ideia da relação clandestina de Rafael e Margherita não é de hoje. No século XIX, o pintor francês Jean-Auguste Dominique Ingres retratou a musa e o artista em várias versões. Picasso, no século XX realizou uma série de desenhos explícitos sobre os encontros do casal. Em “ Peau de Chagrin" encontramos a menção aos amantes feita pelo romancista Honoré de Balzac.


O interessante desta discussão de quem seria a mulher retratada na obra é porque também diz respeito a atual tendência da história da arte de escrever a história através da própria obra utilizando-se para isso de ferramentas científicas como o raio-X e ferramentas digitais.

Durante o século XX os historiadores de arte se esforçaram na necessidade de compor para essa disciplina uma metodologia que respeitasse e distinguisse as particularidades de seu objeto de estudo. No caso da arte italiana do século XVI, os estudos empreendidos pelos historiadores buscaram dar sustentação científica analisando aspectos formais e embasados em uma visão positivista. Esse método por vezes criou uma história anedótica da arte, geralmente mais saborosa quando entregue a si própria. O curioso é que no caso de La Fornarina a história que parecia ser anedótica e romanceada de Rafael foi comprovada através da ciência.


Hoje na casa que se pensa ser a de Rafael, situada ao fim da Via della Lungara, na entrada do Trastevere em Roma, funciona um restaurante chamado Romolo nel Giardino della Fornarina. Ali seria o suposto jardim oculto de Rafael, local preferido para o encontro dos amantes e onde é possível sonhar a história da arte e do desejo com um fabuloso "linguini al limone".

Professora Mestre Maria Cecília Amorim Pilla, estudiosa dos comportamentos cotidianos. Esse assunto a persegue desde a graduação em História e desde então passou a persegui-la no mestrado e doutorado.

Blog da Sissi
Facebook da profe: aqui!


BIBLIOGRAFIA:


-HAUSER, Arnold- História Social da Arte. Martins Fontes, 2010.
-TOMAN, Rolf- A Arte da Renascença Italiana. Konemann, 2006.
-GOMBRICH, E. H- A História da Arte. LTC, 16° Edição, 1999.
-DAGOBERT, Frey- Gotik und Renaissance, p 38, 1929.
-http://diversao.terra.com.br/arteecultura/noticias/0,,OI553812-EI3615,00-Perola+em+quadro+indica+amor+secreto+de+Rafael.html
- http://historiadaarte.pbworks.com/w/page/18413913/Rafael

Nenhum comentário:

Postar um comentário